ORFEU E DIONÍSIO: DOIS CULTOS DIFERENTES
Dois cultos merecem destaque especial dentro da religiosidade grega: o dedicado a Orfeu, de cunho espiritual e o de Dionísio, espelho da própria natureza. Eles não pertencentes à tradição homérica ou hesiodíaca, possuindo, segundo alguns, uma orígem fora da Égide, na Trácia; segundo outros, o culto a Dionísio tem origem na civilização micênica anterior aos aqueus, constituindo uma vertente do orfismo, do qual se libertaria posteriormente.
O
culto a Orfeu foi a origem à iniciação de Eleuses, precursora de
religiões que surgiriam mil anos após. As “orgias”, seus rituais
órficos, buscavam a purificação da alma, visando recompensas em outra
vida. Os órficos- que desenvolveram o conceito da reencarnação da
energia através da metempsicose, derivavam sua religiosidade da descida e
volta de Orfeu ao reino subterrâneo, de sua ressurreição e do
conhecimento adquirido após a tentativa infrutífera de reviver seu amor,
Eurídice, morta devido a uma picada de serpente e enviada ao reino de
Hades.Enquanto o culto a Dionísio aproximava o homem da natureza e liberava seus instintos, o Orfismo, no seu misticismo ensinava aos homens o caminho da boa morte, da busca da recompensa no reino de Hades e Perséfone, ensinando as almas a se afastar do rio Letes e beber das fontes da Mnemósine, obtendo as boas graças dos espíritos guardiões das fontes, devido a boas ações praticadas em vida. Esta foi a única corrente que, na Grécia antiga, associou a prática do bem com recompensas "post-mortem". O orfismo foi apropriado por Pitágoras e constituiu a base, despido de suas celebrações e rituais, da parcela mística da concepção filosófica de Sócrates, dois séculos após.
Mas, contrariamente ao orfismo que possui uma presença marginal dentro da cidade grega, passemos ao culto do “deus máscara”. Existe aqui uma ruptura com os deuses olímpicos. Em seu culto, este deus não se contenta com momentos de piedade que para com ele tenham os homens, pois diferentemente de todos os outros deuses, a Dionísio não bastam orações e sacrifícios pois na sua relação com os homens não há o “dar e receber”, não há moeda de troca, que constituia a tônica de toda a religiosidade vista até agora.
Dionísio é o deus que somente se satisfaz com o total arrebatamento, sua satisfação somente se esgota no abranger de todo o ser humano; Dionísio é o deus que permite o êxtase, a ultrapassagem das medidas, aquele que é capaz de conduzir os mortais desde o mais profundo horror ao mais alto patamar da realização da alma. O deus-máscara, não incidentalmente, metamorfoseia-se em um humano e age como tal, de uma maneira diferente que todos os deuses homéricos, pois, enquanto estes apenas “fingem” serem homens e a carapaça humana é usada tão somente para o envólucro divino, Dionísio assume-se como homem divinizado, ou deus humanizado. Por isto Dionísio é o deus que possui a habilidade de arrastar o ser humano à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como à loucura e à destruição.
Portanto, o culto a Dionísio leva o homem a assumir-se enquanto instinto, enquanto natureza viva. A tendência a ver Dionísio somente como o deus inventor do vinho- esta graça dada aos homens-, não engloba seus atributos, sendo apenas parcela dos mesmos. A essência íntima da própria natureza- a seiva, o mais profundo e íntimo da natureza- representado pelo vinho, é pelo deus colocado a serviço do homem.
Nietzsche assinala: “sob a magia do dionísico torna a selar-se não somente o laço de pessoa a pessoa, mas tambem a natureza alheada, inamistosa ou subjulgada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem”. Aqui vale uma observação importante. O culto a Dionísio e as orgias báquicas instalaram-se, primeiramente, no seio dos camponeses da Ásia Menor, entremeados aos rituais de fecundação da terra.

Gradualmente, entretanto, foram se extendendo por toda a Grécia, não sem gerar reações dos aristocratas, dos reis e governantes, que resistiam às bacanais.
“As Bacantes”, uma das derradeiras tragédias de Eurípedes retrata a resistência da aristocracia ao dionísico, que é representada pelo rei Penteu, assim como a sua submissão e esquartejamento no culto do deus-máscara. Não por acaso as báquides eram mulheres – matronas e donzelas- a se libertarem momentaneamente de um mundo patriarcal pelo “entusiasmo” propiciado pelo vinho, em rituais de danças em contato íntimo e direto com a natureza. Uma das bases deste comportamento aristocrático era a religiosidade “fechada”. Ora, o culto a Dionísio rompe com este poder ao tornar as bacanais festas populares, incorporando mulheres, servos e clientes. O dionisismo é componente importante da própria democracia no âmbito cívico-religioso. Justamente neste momento devemos realizar o correto contraponto, a “sophrosine” tão ao gosto dos gregos.
Enquanto muitos povos tiveram apenas e tão somente seus “dionísios”, seus libertadores do espírito e dos instintos, mesmo dos mais recônditos, dos mais violentos e libertinos, que possibilitavam a mistura incontida de volúpia e crueldade, erguia-se para os gregos, no mesmo patamar de importância, a figura monumental e sóbria de Apolo, ou, voltando-se a Nietzche, “o sonho se opondo à embriaguês”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol, gerador da beleza do mundo onírico, formatado pela consciência. Foi o deus délfico, Apolo quem “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente as armas destruidoras, mediante uma reconciliação concluída no seu devido tempo”.
Enquanto o carro que conduz Dionísio está coberto de flores e grinalda, conduzido que é pela pantera e pelo tigre, trazendo ao homem a liberdade, permitindo-lhe que “viva” e libere seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”, surge com o seu caminhar alado, lado a lado, outro carro, aquele do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao rítmo ditado por uma cítera, ele, o próprio portador da harmonia, da beleza onírica, da verdade, do poder do “logos”, com coroa de louros premonitória doada por Dafne. E é fruto desta união, do conflito e da harmonização entre Dionísio e Apolo, entre o consciente e o inconsciente, da natureza e da consciência humana, que nasceu o melhor da arte grega e, quiça, da arte de todos os tempos.
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